A clareza do escuro

A clareza do escuro

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Quem nunca teve medo do escuro?

O escuro pode ser o lugar das incertezas, das inseguranças ou da solidão. Mas ele pode também ser o lugar da entrega, do sentir, da imaginação, das descobertas e da conexão com a gente mesmo.

Na semana passada, eu tive a oportunidade de viver uma experiência intensa: um jantar no escuro. Isso mesmo, totalmente no escuro. Vendados, fomos conduzidos a um ambiente que não conhecíamos para degustar um cardápio surpresa.

Quando o sentido que mais confiamos, a visão, nos é tirado nós temos duas opções. A primeira delas é temer. A segunda é aceitarmos esse lugar de vulnerabilidade e nos entregarmos. É deixarmos ser conduzidos tanto pelas outras pessoas que estão ali, estabelecendo um laço de confiança, quanto pelos nossos outros sentidos.

Sentir… Como subestimamos o poder do sentir. E como pode ser desafiador, revelador e delicioso se entregar a ele.

Foi como voltar a ser criança e redescobrir o mundo, explorando as suas possibilidades. E, assim como uma criança, que quando fecha os olhos acredita que ninguém mais pode vê-la, o “não ver” me trouxe a sensação engraçada de não estar sendo vista. Foi bastante libertador não ter que me preocupar com o que os outros estavam pensando de mim. Não me importava se eu parecia ou não uma boba brincando com a comida e com a boca suja. O mais importante era me divertir.

E eu posso dizer que eu me diverti muito. Nossos sentidos têm a capacidade de evocar sensações, trazer à tona memórias e até mesmo nos transportar para outros lugares. Eu, por exemplo, revistei a casa da minha avó, um amigo de Bangladesh e meu restaurante favorito na Malásia.

Para intensificar ainda mais a experiência, fizemos tudo isso em silêncio. Foi mais um convite para voltarmos para dentro e estarmos ali por inteiro. Quando estamos presentes, perdemos a noção da hora e ganhamos um tempo de contemplação.

É claro que muitos desses aspectos positivos vieram por estarmos vivendo uma experiência temporária de não enxergar, em um ambiente controlado e seguro, onde cada detalhe foi carinhosamente pensado.

Para, mim foi muito rico viver momentos assim. Por isso eu agradeço à equipe da Amadoria, Babi, Mari e Lu, aos nossos cuidadores e a chef Yu, da Vergel. Vocês me ajudaram a ressignificar a palavra escuro.

Por 9 meses, o escuro foi sinônimo de proteção e cuidado nas barrigas de nossas mães, como bem lembrou a Lu. Agora vejo, novamente, que o escuro pode ser o terreno para a entrega e o sentir.

Mesmo sem toda essa estrutura, eu te convido a fechar os olhos e se conectar com os seus sentidos aí onde você está. Existem coisas que só se vê no escuro.

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Apaixonada por palavras, cores e formas que provocam “waaus”. Facilitadora de fluxos criativos e encantadora de palavras e imagens. Acredito no poder de transformação pela escrita, pela arte e pelo artesanato.