A armadilha das escolhas

A armadilha das escolhas

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“Você TEM que escolher!” Será mesmo? Quantas você foi levado a fazer uma escolha pelo simples fato de que você PRECISAVA escolher?

Quantas vezes você já escutou coisas como: “não se pode ter tudo” ao longo da sua vida? E quantas ouviu: “ou você ama o que faz ou você ganha dinheiro”? A lista continua com: “ou você é bonita ou você é inteligente. Ou você é forte ou é delicada. Ou você é macho ou você é sensível. Ou você fica rico ou se torna uma boa pessoa. Ou você casa ou compra uma bicicleta…”

Eu sei que, muitas vezes nós precisamos, sim, fazer escolhas e nos posicionar. Só que acabamos nos esquecendo que nem todas as escolhas são excludentes. O mundo não está dividido em dois lados como fomos ensinados a pensar. Bom ou mal. Certo ou errado. Direta ou esquerda. Entre o preto e o branco, existem bem mais de cinquenta tons de cinzas.

São muitas as crenças que a gente carrega sem ao menos nos dar conta, não é mesmo? E você já parou para pensar em como essa ilusão do “ou isso ou aquilo” nos limita e nos impede de seguir um caminho mais autêntico e abundante?

 

Tem horas que escolher é se encolher

 

Em muitos momentos, da minha vida eu me vi passando por situações onde fui “forçada” a fazer escolhas que nem sempre precisavam ser feitas.

Eu me lembro bem quando estava na faculdade e me disseram: “ou você se dedica ao texto ou às imagens, não se pode ser uma boa redatora e uma boa diretora ao mesmo tempo, não dá pra ser boa nas duas coisas.” E eu acreditei. Mesmo sentindo o meu ímpeto natural de explorar um caminho mais livre, mesmo com a minha intuição dizendo o contrário, eu acreditei. E escolhi. E me encolhi para poder caber nas caixinhas que criaram pra mim. E me frustei. E escolhi de novo. E me frustei de novo.

A frustração vinha de uma sensação de incompletude, de que estava sempre faltando algo. E estava mesmo. Existiam partes de mim que estavam sendo deixadas de lado, guardadas bem no fundo da gaveta.

O autor Austin Kleon diz que excluir alguma de nossas paixões das nossas vidas é como amputar uma parte de nós: ela não está ali, mas você sente a sua presença como um órgão fantasma. A metáfora ilustra bem esse sentimento.

 

Novas possibilidades

 

Foi fazendo um curso sobre abundância e poder pessoal, com a querida Ariana Schlösser, que eu comecei a enxergar isso com mais clareza. Eu vi que essa história de “ou isso ou aquilo” é um padrão que aprendemos e que limita nossas escolhas. Acreditar nele é acreditar que o universo é escasso. Percebi também que essa escassez não passa de uma grande ilusão. Vi que me contentar com a caixinha era limitar o meu real tamanho. Comecei a enxergar mais possibilidades, que iam além do ou isso ou aquilo, e novas portas começaram a se abrir pra mim.

Ter uma festa de casamento ou viajar de lua de mel? Escolhi ter os dois mesmo sem saber se teríamos grana pra tudo isso. Eu pulei e o universo estendeu a rede. Com a participação valiosa da família e dos amigos, tivemos uma festa linda e uma viagem inesquecível.

Ter um emprego fixo ou investir no meu próprio negócio? Por que não ter os dois? Quando pensei, pela primeira vez, como seria bom ter um trabalho em meio período achei que isso era uma realidade impossível na rotina intensa de uma agência de publicidade. Para minha surpresa, pouco tempo depois, recebi exatamente esse convite de uma empresa que me recebeu muito bem e onde fiquei pelos próximos dois anos.

Quando eu escolhi seguir meu coração e me permiti explorar livremente minhas paixões, foi que a Waau nasceu, lá em 2013. Desde então, tudo começou a ganhar mais sentido e cor pra mim. Eu descobri que posso, sim, ser várias versões de mim. Posso escrever, desenhar, pintar, criar artes digitais e manuais, criar produtos e oficinas, aprender, ensinar, me inspirar e inspirar outras pessoas. Posso até fazer coisas que me pareciam bem difíceis como me expor mais, vender, tomar conta das finanças…

 

Novos desafios

 

Me permitir ser inteira foi libertador. O que não quer dizer que seja sempre fácil. Nem que eu não caia novamente na armadilha das escolhas, como quando eu me deixo dominar por pensamentos como: “ou você tem sucesso no seu negócio ou você começa a sua própria família”, “artistas bem-sucedidos escolhem apenas uma linguagem”, “ou você se dedica a criar produtos ou você foca na criação dos cursos e oficinas.” Só pra citar alguns exemplos.

Basta muito pouco para que eu me veja me comparando com outras pessoas e me pondo a pensar: “viu, fulana só cria produtos, olha como a mensagem dela é mais clara e como ela vende muito. Ou, ciclano, só cria cursos e tá fazendo muito sucesso.” E, novamente, liga um alerta aqui dentro. Olha eu querendo me limitar novamente e voltar para a caixinha de onde lutei tanto pra sair.

Nessas horas, me conforta lembrar que eu não estou sozinha. Existem outras pessoa passando por isso e fazendo dar certo. “Multipotenciais”: esse foi o nome chique que deram para quem têm múltiplas habilidades e múltiplos interesses. Leonardo Da Vinci e suas explorações pelas ciências e artes, talvez seja o exemplo mais icônico dessa multipotencialidade. Mais perto de mim, vejo vários exemplos de empreendedores criativos criando seus próprios jeitos de fazer acontecer. Nem me atrevo a citar nomes aqui, porque corro o risco de deixar de fora algum importante companheiro de jornada.

Depois da escolha de me dedicar à Waau, um grande desafio pra mim tem sido gerenciar meu tempo e conciliar múltiplos projetos. Nesta horas, não dá pra negar que é preciso escolher. Não dá pra fazer tudo que tenho vontade ao mesmo tempo. A Rafaela Cappai tem uma boa metáfora explicar pra isso. Ela diz que multipotenciais são como canivetes suíços, tem várias ferramentas dentro de si, mas o que acontece se tentarmos usar todas elas de uma só vez? Nada. Simplesmente, nenhuma delas vai funcionar direito.

Escolher um foco é preciso. Só que esse foco pode ser momentâneo, pode durar algumas horas, uma semana, um mês, um ano ou o tempo que um projeto precisar pra ser colocado no mundo. A escolha não precisa ser pra vida inteira, enquanto as outras ferramentas enferrujam dentro do canivete. Uma escolha pode durar enquanto a motivação pra torná-la viva ainda pulsar forte dentro da gente. Depois disso, talvez o caminho seja abrir espaço para algo novo.

Acho importante lembrar também que mais de uma escolha pode ser feita de forma paralela, com o cuidado para que todas sejam bem-nutridas. E que nem todas as paixões precisam se tornar trabalho, elas podem ocupar espaço em nossas vidas na forma de hobbies, por exemplo.

Eu sei que ainda tenho muito a aprender, mas pela experiência que já tive até aqui, quero te dizer que quando você se vir diante de uma escolha, pense: eu realmente preciso escolher? Se resposta for sim, será que essa escolha está me fazendo encolher ou me fazendo expandir?

E você, como lida com a escolha de quais paixões e talentos quer colocar no mundo?

Vamos continuar essa conversa aqui nos comentários.

 

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Crédito foto: Dawid Zawiła on Unsplash

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Apaixonada por palavras, cores e formas que provocam “waaus”. Facilitadora de fluxos criativos e encantadora de palavras e imagens. Acredito no poder de transformação pela escrita, pela arte e pelo artesanato.